Reflexões GB sobre o Dia das Mães

Quando pequenas, meninas ganham bonecas. Aprendem desde muito cedo a cuidar de uma reprodução em tamanho reduzido delas mesmas. Aprendem a fazer comidinhas, a alimentar, vestir, trocar fralda.  Enquanto isso, meninos montam naves espaciais com Lego, brincam com carrinhos, ferramentas e super-heróis.

Desde muito pequenas, nós mulheres somos treinadas para o momento que será o ápice da nossa vida: dar à luz a outro ser. E, de fato, gerir outro ser humano é algo lindo e forte. As atividades que envolvem tutorar esse novo ser humano são, também, de crucial importância e necessitam de dedicação e esforço contínuos. Ou seja, de forma nenhuma desejamos desmerecer a beleza e o trabalho de ser mãe, mas nos questionamos: será que esse é realmente o desejo de toda mulher? A maternidade sempre foi vista desta maneira? A criação dos filhos sempre esteve prioritariamente nas mãos das mulheres? Resolvemos dar uma pesquisada para compreender um pouco mais sobre como chegamos até aqui.

Maternidade Compulsória e contexto histórico

Não há como falar de maternidade compulsória sem entrar nos méritos do machismo. Pra quem acha que igualdade de gênero é uma demanda recente, temos algumas infos: nas tribos de caçadores-coletores na pré história, homem e mulher possuíam poder de decisão igual, e exerciam papéis sociais parecidos. A monogamia era norma, e os homens ajudavam a cuidar das crianças.

Reconstituição histórica do homem de neandertal no Museu de História Natural de Manhattan.

Segundo o antropólogo Mark Dyble, a igualdade entre os sexos pode ter surgido como uma vantagem de sobrevivência, e distinguiram nossos antepassados dos primatas: “Os chimpanzés vivem em sociedades agressivas, dominadas por machos, e têm hierarquias claras”. A mulher, tendo poder de decisão igual ao homem, acabava optando por agregar à tribo seus irmãos e pais, e a cooperação entre indivíduos foi grande responsável pela transmissão de conhecimento e inovações. Apenas com o surgimento da agricultura e com a ideia de acumulação de recursos é que a desigualdade de gênero começou.

A mulher até então era admirada por gerar vida: acreditava-se que ela possuía poderes mágicos, e tinha forte ligação com a agricultura e a fertilidade dos campos. Tinha seu papel destacado, mas não era considerada mais poderosa do que o homem. Ambos viviam em harmonia.

Vênus de Willendorf – estudos mostram que essas estatuetas representavam a Deusa Mãe
Terra, a mãe da fertilidade, e que eram carregadas e utilizadas como amuleto de função mágica.

Alguns historiadores atribuem a invenção do arado ao início da desigualdade, pois era necessária uma força maior para uso do mesmo, que passou a ser controlado pelo homem. Poder foi relacionado então à força física.

Outro fator que contribuiu para isso é que, em certo momento, foi percebido que a mulher só gerava vida após ter contato com um homem. O culto ao feminino caiu por terra, e os homens atribuíram a si mesmo uma posição de poder sobre a geração de filhos. 

A mulher se tornou apenas o receptáculo, e o homem passou a ser o responsável por plantar a semente de uma nova vida. Surge o conceito de família, como forma do homem ter controle da sua prole, pois quanto mais filhos, mais mão de obra para trabalhar na agricultura. O tempo passou e surgiu a religião que acabou por fortalecer o patriarcado. A mulher foi perdendo sua importância e sua liberdade.

O papel social da mulher: bela, recatada e “do lar”

“Mr and Mrs Andrews”, Thomas Gainsborough, 1750

Foi atribuído à mulher então, papel de reprodutora e cuidadora do lar, submetida ao poder do homem. E criou-se todo um romantismo em torno da figura de mãe. Temos como exemplo Maria, mãe de Jesus, uma mulher virgem e pura, e que a única função memorável foi dar à luz ao salvador, um homem.

Por trás de todo grande homem existe uma grande mulher”

O único tipo de mãe aceita socialmente é a mãe casada. Uma mulher que gera um filho para herdar o sobrenome do pai e seguir com a linhagem. Uma mãe que faz tudo por seus filhos, abre mão de seu emprego, quando necessário, de sua vaidade e de seu prazer. Apoia seu marido em suas conquistas, oferece o suporte necessário, assume e toma conta do lar e dos filhos. É excluída do mercado e das decisões importantes na sociedade.

Após a expansão industrial e incorporação da mulher na força de trabalho, o papel da mulher começou a se modificar. Além de mãe, ela inicia sua jornada no mercado de trabalho, mas ainda assim continua responsável pelo lar e pelos filhos.

Mãe x mulher

Essas palavras têm se fundido durante toda a história. É difícil desligar a mulher da imagem de mãe. Faz muito pouco tempo que essa ligação entre mulher e mãe começou a ser questionada como indissolúvel.

A mulher contemporânea têm desejos diferentes. Luta por sua liberdade de escolha, tem emprego e carreira. Tem acesso a uma gama de opções que não tinha até pouco tempo atrás. Mas a pressão social para se tornar mãe ainda existe.

Fica difícil para a mulher competir com um homem pelo mesmo sucesso na carreira, quando o homem homem – com ou sem filhos – pode se dedicar a isso em tempo integral, e a mulher tem que se tornar mãe antes dos 40 (e vá pressão para congelar óvulos) e ainda manter o lar e a vida pessoal em ordem. Além disso, devemos considerar que, em uma sociedade que entende as conquistas profissionais como o principal sinal de sucesso e poder, e na qual o poder é o que te dá um “lugar à mesa” nas grandes decisões sociais, fica claro que as relações de poder entre homens e mulheres estão longe de serem equilibradas.

Ser mãe é uma escolha muito pessoal, que só cabe à própria mulher decidir.  E, por mais que estejamos em um período que permite maiores discussões sobre o assunto, no qual as mulheres tem muitas liberdades que outrora não desfrutavam, a decisão de ter um filho ainda é uma decisão que impacta a vida profissional e a rotina pessoal de forma desproporcional entre homens e mulheres.

Uma mulher pode ser mãe, profissional e mulher, sem dúvida nenhuma, se isso for o que ela deseja. Entretanto, hoje isso não parece estar colocado como uma escolha, e sim como modelo a ser alcançado por todas nós e que mais nos engessa do que liberta. Ao invés de nos sentirmos livres para sermos mães, profissionais, profissionais-mães, mulheres, mulheres-profissionais, mães-mulheres-profissionais e o que mais quisermos, agora devemos ser tudo e sem esperar grande ajuda dos homens-pais. Nem toda mulher quer ser mãe, nem se torna menos mulher por isso. E nem toda mãe quer abraçar o mundo e não se torna menos forte e independente por isso.

Nós mulheres somos portais para esse mundo. Ninguém chega aqui senão através de uma mulher, e isso é realmente poderoso. Que nossas decisões sejam respeitadas e que nosso desejo de trazer outro ser humano ao mundo seja genuíno, e não fruto de pressão social. 

Parabéns a todas as nossas mães que proporcionaram a nossa geração o poder da escolha, e que o dia das mães não seja apenas mais uma data comercial, e sim um momento para refletir sobre o papel da mãe e da mulher na sociedade.

(Esse texto reflete a opinião e realidade da mulher branca, cabendo recortes para outros contextos)

 

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